Disputas internas podem custar caro para a Red Bull

[Diego Wendhasen Passos, leitor e comentarista, além de autor do Blog Diego Passos F1, é o nosso terceiro convidado do blog neste período de férias na F1. Diego fala neste texto sobre como a falta de comando na Red Bull e a briga interna entre Vettel e Webber até o fim do ano pode prejudicar o time na conquista de seu 1º título mundial…]

O que vem acontecendo na Red Bull, nesta temporada, é fato que aconteceu em outras ocasiões na Fórmula 1, na qual as disputas entre companheiros de equipe custaram títulos, principalmente no campeonato de pilotos.

A Williams passou por essa situação duas vezes. Em 1981 e 1986, mesmo conquistando o caneco entre as escuderias, o time de Grove não levou entre os compedidores. Nelson Piquet, correndo pela Brabham em 1981, aproveitou-se da briga envolvendo Alan Jones e Carlos Reutemann e saiu campeão, passando pela mesma situação cinco anos depois, novamente na associação dirigida por Frank Williams, desta vez com o brasileiro e o britânico Nigel Mansell, favorecido pela equipe. Assim, Alain Prost, correndo pela McLaren, foi o beneficiado, faturando o segundo dos quatro títulos que conquistou na Fórmula 1.

Em 2007, foi a vez da equipe de Woking ver o título ficar nas mãos da concorrência. O espanhol Fernando Alonso, com o status de campeão mundial, teve que disputar a atenção da equipe com o então estreante Lewis Hamilton. No fim, Kimi Raikkonen, que tinha defendido a McLaren até o ano anterior, foi para a rival Ferrari e ganhou o troféu no Brasil, tirando uma desvantagem considerável nas duas corridas finais, ganhando de Alonso e Hamilton por apenas um ponto.

Neste ano, a Red Bull, com o carro mais rápido do grid, vem conquistando poles e voltas mais rápidas, mas não vem traduzindo a mesma superioridade na tabela de classificação. Dois incidentes ascenderam o sinal de alerta na escuderia comandada pelo milionário austríaco Dietrich Mateschitz. A primeira foi na Turquia, quando Sebastian Vettel colidiu com Mark Webber quando tentava passar o companheiro, abandonando a disputa e rebaixando o austríaco ao 3º lugar, dando a vitória de presente para Lewis Hamilton e Jenson Button, da McLaren.

Na Inglaterra, mais polêmica. Na largada, Vettel teve um pneu furado e acusou o colega de causar o estrago, comprometendo a corrida do piloto alemão, enquanto o australiano, após vencer a etapa, proferiu a frase “nothing badly for second driver”, em português, “nada mal para um segundo piloto”, reclamando dos benefícios concedidos ao companheiro durante os treinos de classificação, no dia anterior.

Os touros vermelhos têm uma grande vantagem em relação aos adversários neste ano, mas os incidentes caseiros trazem na cabeça dos espectadores e torcedores o famoso “já vi esse filme antes”, podendo jogar pela janela uma conquista provável por causa também da falta de comando dos dirigentes, não impondo os limites necessários nas disputas internas.

Você acha que a Red Bull perderá o título de 2010 pelas suas brigas internas?

Por Diego Wendhausen

30 comentários em “Disputas internas podem custar caro para a Red Bull

  1. Belo post. Vamos lá. Eu falei a muito tempo uma coisa sobre a Red Bull: Uma equipe de um carro fantástico, mas a equipe em sim é mediana. Não que todos sejam incompetentes, mas a equipe tem certos empregados que não sabem lhe dar com pressão. E olha, eles tem dois bons pilotos, mas o ‘primeiro piloto’ da equipe é imaturo ainda. Vettel é talentoso, rápido, mas ainda precisa aprender muito. Webber, com mais experiência, pra mim é mais candidato esse ano, até porque já se aproxima a hora de ele sair da F1, pelo menos é o que se diz por ai. Parece que se ajeitaram agora, e Webber pode render bons frutos a equipe até o fim do ano, só precisam controlar a cabeça de Vettel que mostra ser fraco emocionalmente e isso pode os prejudicar e muito!

    • Vou de acordo contigo. A Red Bull está fazendo boas campanhas nos últimos anos, porém, para se tornar uma grande equipe, precisa de títulos, saber lidar com a pressão, disputas internas. Quanto ao Vettel, falasse tudo. Talentoso, mas ainda tem muito o que aprender, falta maturidade, e poderá jogar pela janeta um título provável, mesmo com o melhor carro.
      O Webber vem fazendo uma ótima campanha, depois de um início contestável, foi ganhando confiança e mostrado que é um forte candidato ao caneco.

  2. Na verdade Diego , há um impasse entre o desejo da equipe e a sorte competente de Webber . Mesmo com a equipe privilegiando Vettel , dando-lhe a preferência do equipamento , os fados da competição escolheram Webber como muito bem você relata nesse belo post e que da qual não preciso aqui relatar .

    Portanto , nesse balanço de perdas e ganhos , Webber teve mais sorte competência , e está não só a frente de Vettel , mas como de todo o resto , e , numa guerra aberta marcada para o próximo round .

    D. Mateschitz , que raramente fala sobre sua equipe , deu uma interessante entrevista a mídia alemã com várias declarações que não esclarecem nada , não é interessante ? Mas admitiu que houve erros , e disse também que as equipes adorariam ter esse ” problema ” na disputa do título . E se estendendo mais um pouco disse que defende o direito de todos opinarem e falar a verdade da ou na Red Bull . Por fim deixou um recado que não quer que a disputa Webber/Vettel , crie um drama no seio da equipe e que a competição na F1 , passa pelo duelo entre pilotos da mesmo equipe .

    Mas agora te respondo Diego : A direção da Red Bull , terá que se virar para acomodar a situação entre manter a preferência ainda a Vettel e a liderança de Webber . Um ” belo ” de um impasse que me passa a impressão de que o projetista Newey fez um carro magnífico , colocando as vantagens de colherinha para dentro da equipe , enquanto a política administrativa da Red Bull colocam de pá para fora , com isso , tenho muitas dúvidas quanto a conquista dos títulos .

    Mesmo assim Diego , não percamos os próximos capítulos .

    Abraços .

    • É pública a preferência da escuderia austríaca pelo alemão Vettel, mas neste momento, quem está na frente e mostrando mais possibilidades de levar o título é o Mark Webber, mas os “touros vermelhos” vêm dando mais suporte ao germânico, fazendo com que o competidor australiano reclamasse na Inglaterra, conforme frase citada no texto. Essas situações são de risco para uma equipe. Em alguns casos, custou o caneco. Neste ano, além de correrem o risco de perder entre os pilotos, podem perder também entre os construtores, já que a McLaren está com seus dois pilotos bem classificados. Na equipe de Woking, está bem a situação entre Button e Hamilton. Ambos tiveram algumas disputas, como na Turquia, mas a diferença é que Jenson foi mais comedido, evitando entregar a vitória nas mãos da concorrência. O time inglês aprendeu com os erros e não será surpresa se sair com os dois títulos nesta temporada.

  3. Não perderá o título, vai superar esta dificuldade e potencialmente vai levar esta experiência adiante nas próximas temporadas. Foi assim com a Mclaren, foi assim com a Williams e assim será com a Red Bull Racing.

    • Lembremos Renato, que a McLaren perdeu o título em 2007. Outro dia estava revendo a corrida e a sensação de impotência do time de Woking diante das Ferrari em primeiro foi lamentável, até porque eles tinham o melhor carro do campeonato.

      • Agora vem o famoso”e daí?” rs rs rs

        Assim como perdeu também conquistou. =)

        Faz parte das corridas Tomás e isso que realça a F1 e outras competições similares. É uma competição que está sujeito as falhas, a erro humano na pilotagem, em função das disputas por posição e o mais importante… vitórias e derrotas.

        Nem sempre o melhor vence e isso vem desde os primórdios da F1.

        Quem não levantou da cadeira para berrar “NÃO” naquele dia no 2007? ou comemorou a batida ou um erro neste ano? ou ficar intrigado com as intensas disputas? Competição sempre tem prós e contras e isso faz parte, quem participa tem que estar sujeito a vitórias e derrotas.

        Acho que vale uma discussão a respeito apesar não conhecer tanto a F1 como muitos aqui.

  4. Em certo momento eles terão que definir quem terá a prioridade, tendo em vista que apenas um vai sair campeão. Neste momento, o Webber está melhor e deveria ter a preferência, até por que Vettel vem cometendo erros bobos, mas quem decide é a equipe.
    A disputa, se continuar como está, deverá ir até a etapa final.

  5. Webber vai levar o caneco e Vettel vai tomar no caneco. Mas a Red Bull fatura o caneco de qualquer modo. Acredito ser possível, mesmo com essas picuinhas. Porque o Webber está mostrando que é macho em vez de ficar reclamando pra imprensa.

  6. Ralf Schumacher defendeu seu irmão em meio às críticas contínuas ao seu retorno à Fórmula 1.

    ” Michael é descrito como uma espécie de robô sem sentimentos, meu irmão não é assim, sobre sua manobra na Hungria pediu desculpas, todos deveriam aceitar e seguir em frente”.
    Ralf disse que não é uma surpresa que os maiores críticos da manobra de seu irmão em Hungaroring incluam David Coulthard, Jackie Stewart e Alex Wurz.
    “Há pessoas que têm história com Michael, foi uma manobra dura, mas mostrou como Michael ainda leva seu trabalho a sério, do ponto de vista de um piloto, uma coisa é clara, a volta dele ajudou toda a Fórmula 1, Michael já mostrou nesta temporada que ainda tem velocidade”.

    • Só faltava ele sair em defesa do Rubens.. rs.
      É claro que alguém tem que amenizar a imagem de Schumacher depois da Hungria, mas não sei se Ralf é uma das pessoas mais confiáveis para isso.

      • Eu concordo com ele, e ele falou tudo, a maioria das pessoas pensam que ele é um robo, e isso é chato para os fãs, que sempre, sempre tem de ficar escutando besteira…queira ou não queira.

        Abraços

      • O Ralf Schumacher foi um dos que mais fez besteiras, dos que vi. Sou um crítico dele, pois quando saiu da Williams, disse que não deram carro para ele disputar título. O que faltou a ele foi mais consistência, ele conseguia ser competitivo durante parte do campeonato, mas perdia terreno na parte final, não conseguia tirar a diferença em situações desfavoráveis. Sempre considerei pilotos como Coulthard, Montoya, Fisichella e Trulli melhores que Ralf, sendo que apenas o escocês não dividiu os boxes com o alemão. O colombiano foi superado apenas no primeiro ano, superando o ex-companheiro nas temporadas seguintes. Fisico correu apenas um ano, e assim como Montoya, teve sérios problemas com Ralf na Jordan. Também superou o ex-colega de equipe. Trulli era frequentemente mais rápido, mas superou Ralf apenas em 2007.

        Ele andava rápido, mas tinha dificuldades em tentar ultrapassar, não era o forte dele. Ganhou no Canadá, em 2001, por que parou depois do irmão e tinha um carro bem mais rápido, no ano seguinte, na mesma pista, ficou mais da metade da corrida tentando passar Raikkonen, e o finlandês, mesmo com um carro inferior e mais lento, segurou o ex-piloto da Williams.

        Nunca fui simpatizante dele, acho que ele teve muito “pedigree”, e andava na frente por ter carro, não era um bom piloto, era apenas veloz.

  7. Domenicali chamou de hipocrisia as críticas pelo jogo de equipe da Ferrari, a equipe impôs uma ordem para que Felipe Massa cedesse a primeira colocação a Fernando Alonso, o jogo de equipe está proibido na F1.
    A Ferrari será julgada pelo Conselho Mundial da FIA, no dia 8 de Setembro, além dessa polêmica, a Ferrari também está envolvida com a asa dianteira, que é flexível, o que também infringe o atual regulamento técnico.
    Para a McLaren, os carros da Ferrari e os da Red Bull, as asas movem muito além do limite legal.
    Domennicali:
    “Fiquei chocado ao ver tanta hipocrisia”.
    A nova asa dianteira proporcionou um ganho de performance incrível.
    “Fiquei muito satisfeito, os resultados estão aparecendo, nós sabemos que há muito que fazer”.
    “Estamos em férias, talvez possamos até encontrar uma nova inspiração”.

    • Louco…
      Queria ver ele dizer isso na cara de alguns pilotos de outras décadas.
      Aposto que sairia moído. rs

      • Renato, parece que a F1 tem uma influencia muito grande da omissão da FIA.

  8. Belo post, parabens.
    A Red Bull não aprendeu com os erros dos outros. A Mclaren perdeu um titulo que estava na mão dela. E a Red Bull segue o mesmo caminho neste ano. Vettel e Webber ainda duelarão muito esse ano.

  9. A F1 é um esporte, todos estão lá para vencer. Em 88 e 89, Senna e Prost brigaram pelo título entre si e levaram. Não é regra que se dois companheiros brigarem vão deixar o campeonato cair no colo dos outros. Isso acontece caso a disputa ultrapasse limites. O que aconteceu nos casos citados acima, e vem acontecendo com a Red Bull. A RB pode perder sim o campeonato, mas se perder não é por causa da briga. Apenas em uma corrida houve um incidente claro que atrapalhou isso, que foi o GP da Turquia, com o erro de Vettel. O carro é superior, e nas duas próximas provas pode ficar bem acima das demais, e a conversa vai ser outra, se alguém pega a Red Bull, o que já escrevi no meu blog. Abraço, bom post!

    • As temporadas de 1987, com Mansell e Piquet, na Williams, e em 1988 e 1989, com Prost e Senna, na McLaren, são casos a parte. Em 1987, McLaren, Lotus e Ferrari não tinham equipamento capaz de disputar com o time de Grove. Conseguiam, em algumas corridas, competir em igualdade, mas não durante toda a disputa.

      Em 1988 e 1989, a McLaren construiu dois carros extremamente superiores a concorrência, não oferecendo chances aos adversários. Assim, a escuderia de Woking não correu riscos de jogar pela janela os títulos de pilotos e construtores.

      As disputas de equipe sempre acontecem e não será a última vez. Ainda veremos muitas.

  10. Adrian Sutil revelou que está relutante em assinar um contrato para correr na Renault, falou que a Renault não é uma opção melhor do que a sua atual equipe.
    “É muito cedo para dizer, ninguém sabe o que a Renault vai fazer, eles estão apenas dois lugares na nossa frente no momento eu não vejo qualquer motivo para deixar a minha equipe, achar algum lugar melhor que a Force India é difícil no momento, eu queria era uma equipe de ponta: Mclaren, Red Bull, Ferrari ou Mercedes GP…

  11. Não sei se ela perderá, mas se perder, vai ser exatamente por problemas internos, porque o carro é o melhor do ano, os pilotos são igualmente bons. Talvez depois do fim do circuito europeu teremos um primeiro piloto na equipe, o que evitará brigas internas.

  12. O maior poder de Webber é o mental.
    A maioria dos pilotos que foram companheiros do australiano foram absolutamente destruidos mentalmente, passando a ser pilotos emocionalmente instáveis diante da frieza do “Aussie”, vide Pizzonia, Burti, etc. Ele consegue, mesmo que às vezes, como esse ano, não traga a equipe pra o seu lado, desestabilizar o companheiro de equipe, assim como Piquet fazia com Mansell. Às vezes, por ser muito veloz nos treinos, vai ao pé de ouvido do companheiro e diz “Quero ver me ganhar amanhã”, e faz uma corrida irritantemente consistente levando o companheiro ao erro. Ainda mais com um bom, mas inexperiente piloto como Vettel. É seríssimo candidato ao título de 2010.

    • Francis,
      parece que você tem razão, Vettel mesmo sendo novo, já tem um bom tempo na F1,
      a falta de experiência não pode ser levado em conta, essa parte de destruir mentalmente
      pode está influenciando muito!

    • Experiência também conta e muito. Damon Hill, na minha opinião, ganhou assim, além de ter um carro superior.

      Mark Webber não é tão veloz quanto Sebastian Vettel, mas sabe lidar com a pressão, enquanto o alemão comete erros primários, em algumas ocasiões. O competidor australiano tem mais malandragem, mesmo não tendo o apoio da equipe. Webber vem fazendo uma temporada bem concisa, construindo bons resultados, mesmo após um começo ruim.

      Mas a Red Bull tem que se cuidar, caso pisarem na bola, Alonso ou a McLaren estarão lá para arrematar essa.

  13. Poder pode. Mas para o bem do esporte espero que não. Pois do contrário, as ordens de equipe terão justificativa prática.

    Gostaria de ver a Red Bull vencendo o campeonato para mostrar que sim, apesar do fato de poder trazer problemas, jogar limpo com o telespectador pode trazer bons resultados.

  14. Entrevista do Nelson Ângelo para a revista ISTO É

    ”EU ERA JOVEM QUANDO ERREI. MASSA TEM NOVE ANOS NA F-1″

    O piloto diz que seu colega brasileiro perdeu espaço na Ferrari porque está lento demais e quis se exibir e criar confusão quando foi obrigado a entregar a corrida.
    Piquet conta que se dava muito bem com Massa, mas depois que foi banido da F-1 o piloto da Ferrari deixou de falar com ele.
    Protagonista de um dos maiores escândalos da F-1 – admitiu ter batido o carro para favorecer Fernando Alonso, seu colega na Renault em 2008 –, foi criticado por Felipe Massa quando o caso veio à tona.
    Massa:
    “Foi uma atitude muito feia”.
    No ano passado, os dois se encontraram num Kartódromo em São Paulo e o ferrarista reagiu com frieza aos cumprimentos de Piquet.
    A saia-justa e o constrangimento ficaram evidentes.
    Piquet tinha tudo para saborear uma doce vingança ao ver Massa duramente criticado por seguir uma ordem da equipe e deixar o mesmo Alonso. Mas prefere analisar o contexto da F-1 hoje. “Qualquer um na posição dele teria de fazer o mesmo”.

    ISTOÉ –

    O Brasil se desiludiu com você e com o Felipe Massa. Dá para comparar a sua situação em Cingapura (quando bateu para favorecer Fernando Alonso) com a do Massa na Alemanha (que deixou o piloto espanhol passar)?

    NELSON ÂNGELO –

    Eu era um piloto novo, estava aprendendo e entrei em um time que era do Fernando Alonso.
    Ele tinha sido bicampeão pela Renault e o Flavio Briatore, diretor da equipe, era o melhor amigo dele.
    Ele tinha toda a atenção.
    Com o Massa foi diferente.
    O Massa chegou antes do Alonso, ele conhece a Ferrari há mais tempo e ainda tem o Jean Todt, hoje na Federação Internacional de Automobilismo (FIA), mas que ainda tem força dentro da Ferrari.
    E quantos anos o Massa tem na F-1? Nove anos?
    A situação dele é completamente diferente da minha.

    ISTOÉ –

    Diferente como?

    NELSON ÂNGELO –

    Para ele, foi mais desagradável porque ele tem uma trajetória de vitórias e bons resultados, mas nessa temporada não vinha bem, apesar de ter um histórico na equipe pela qual compete. É chato ver alguém que chegou depois com a bola toda, como o Alonso, andando bem mais. E é isso que está acontecendo com o Massa.

    ISTOÉ –

    Essa é uma prática comum?

    NELSON ÂNGELO –

    Um pouco. Uma equipe da F-1 investe centenas de milhões de dólares, ela não quer assumir o risco de perder por um motivo besta, como o capricho de um piloto. Tudo é levado em conta pela equipe, que toma uma decisão final e os pilotos acatam. Mas ninguém gosta de receber uma ordem como a que o Massa recebeu.

    ISTOÉ –

    A atitude de Massa o surpreendeu?

    NELSON ÂNGELO –

    Ter deixado o Alonso passar não, mas a forma com que ele o deixou passar sim. Geralmente esse tipo de arranjo se faz de maneira mais sutil. No final de uma reta o piloto freia um pouco antes em uma curva, deixa o companheiro se aproximar e fazer a ultrapassagem. Tudo bem que em disputa pelo primeiro lugar fica mais difícil ser sutil, mas não precisava ser tão evidente. Aí o Massa me surpreendeu. Ele queria evidenciar o jogo de equipe da Ferrari para se mostrar, para causar um pouco de confusão. Porque a situação em si é normal. O código mais usado é o que a Ferrari usa, de que o companheiro está mais rápido que você.
    Massa entendeu, mas queria deixar claro que, por ele, não haveria ultrapassagem. A Ferrari jamais vai perder a oportunidade de aproximar um de seus pilotos dos líderes do campeonato. Se o Massa não quer que isso aconteça, ele precisa aceitar que está mais lento e correr. Trabalhar para ficar mais rápido que o Alonso. Não tem outro jeito.

    ISTOÉ –

    Você se dava bem com o Massa quando corria na F-1?

    NELSON ÂNGELO –

    Me dava bem tanto com ele quanto com o Rubens Barrichello. Os dois sempre me trataram muito bem, me davam dicas nos circuitos que eu conhecia menos, sentávamos os três juntos nas reuniões de pilotos. Era um clima gostoso.

    ISTOÉ –

    Mudou depois que o arranjo de Cingapura veio à tona?

    NELSON ÂNGELO –

    Mudou bastante. O Massa ficou muito chateado comigo porque ele acha, até hoje, que perdeu o campeonato de 2008 por minha causa. Não adianta argumentar que ele quebrou o motor na Hungria, que ele e a Ferrari cometeram erros. Fora que também faltou sorte para ele, né? Pelo amor de Deus, aquela última volta em Interlagos foi pura sorte do (Lewis) Hamilton (que foi o campeão) e azar dele. Mas ele continua muito chateado. Eu entendo, mas não sofro mais tanto com isso. Nunca mais conversei com ele.
    A gente se cruza de vez em quando, mas não temos contato.

    ISTOÉ –

    Você entrou na Renault como segundo piloto? Estava no contrato?

    NELSON ÂNGELO –

    Para ser bem honesto, não lembro de ter nenhuma claúsula desse tipo no contrato. Mas nas reuniões que antecedem os GPs sempre fica muito claro. A equipe estabelece um código que será usado para orientar um piloto a dar passagem ao outro, além de marcar os locais, geralmente dois, onde as ultrapassagens podem ser feitas. É o acordo de cavalheiros, é a palavra do piloto – não tem nada em contrato. Embora não conheça o contrato do Alonso e do Massa, acho muito difícil que haja uma cláusula como essa, até porque quando o campeonato começou o Massa estava em pé de igualdade com o Alonso. O máximo que tem por escrito é que os pilotos devem respeitar as ordens de equipe.

    ISTOÉ –

    Como fica a competitividade com o fato de haver o primeiro e o segundo piloto da F-1?

    NELSON ÂNGELO –

    Não acho certo um piloto dar passagem para o outro, mas também não acho um absurdo. A F-1 é um esporte de equipe. Vamos inverter a situação: se fosse o Massa que estivesse melhor no campeonato, o Alonso teria que dar passagem e não haveria discussão. A gente pode até imaginar uma equipe com um só piloto, mas economicamente fica complicado. Ela teria que trabalhar com metade do orçamento, metade do pessoal, não sei se daria certo, apesar de ser, teoricamente, viável.

    ISTOÉ –

    Mas não fica evidente para o torcedor que existe jogo de equipe.

    NELSON ÂNGELO –

    O torcedor ainda tem como referencial de competitividade da categoria a época do meu pai, que brigava com o Nigel Mansell dentro da mesma escuderia. A Williams estava dividida – eram dois times completamente separados dentro da equipe, com mecânicos e engenheiros que não se falavam. E o que aconteceu em 1986? Os dois perderam o campeonato para o Prost, da McLaren.
    A Williams tinha ganhado quase todas as corridas, mas o Prost, de pontinho em pontinho, acabou levando o título enquanto os dois brigavam.
    Hoje é evidente que o esporte se comercializou de um jeito que não permite mais esse tipo de brincadeira que pode custar o campeonato.

    ISTOÉ –

    A Ferrari é clara no jogo de equipe dela?

    NELSON ÂNGELO –

    Não só ela, todas as equipes são.

    ISTOÉ –

    De onde vem tanto nacionalismo brasileiro em um esporte tão individual como a F-1?

    NELSON ÂNGELO –

    O brasileiro tem uma paixão muito grande pelo Brasil. Quando você pode exibir o Brasil em um ambiente tão diferente como o da F-1, onde prevalecem os europeus, é natural que o torcedor se identifique mais com o piloto do que com a equipe. E para o piloto isso é importante. Eu posso dizer com conhecimento de causa: a Europa é um fim de mundo. Quem sai do Brasil para morar lá não come bem como aqui, não tem o clima, a praia, a família e os amigos. Então, não poder subir ao pódio representando o Brasil por causa de um acerto de equipe é tão frustrante para o piloto quanto para o torcedor. Poder levantar a bandeira é sensacional.

    ISTOÉ –

    Parte do problema está na forma como a F-1 é apresentada ao torcedor?

    NELSON ÂNGELO –

    É complicado apresentar a F-1 para o torcedor brasileiro. Ele está acostumado com o futebol, que todo mundo conhece mais.
    A F-1 é uma categoria mais restrita, fechada, cheia de boatos e segredos. Ela envolve muito, muito dinheiro, e poucas pessoas.
    É difícil passar essa complexidade para o torcedor. O (narrador) Galvão Bueno, por exemplo, faz o que pode, mas ele não é piloto. Quando o Luciano Burti, que foi piloto da categoria, comenta, as coisas ficam mais claras. Lógico, o Galvão é um narrador profissional, ele precisa falar para o povão e as pessoas estão acostumadas a ouvi-lo, mas muita coisa que ele diz não faz sentido. Ele adora dizer que fulano está pensando isso ou aquilo. É claro que ele não sabe o que passa na cabeça do fulano. Mas entendo o esforço para explicar a vida em um paddock chato como o de F-1.

    ISTOÉ –

    Como foi, para você, deixar a F-1 pela porta de trás?

    NELSON ÂNGELO –

    Errei. Ninguém sonha em sair da F-1 como eu saí, mas aconteceu. Agora virei a página. Tive minha experiência na categoria, tinha muitas expectativas, mas acabou. Me arrependo do que fiz, mas não vivi uma decepção com a categoria. Me coloquei em situação difícil, entre um ditador (Flavio Briatore) e o Alonso, mas é muito bom, muito rápido e muito esperto.

    ISTOÉ –

    Que tipo de esperteza?

    NELSON ÂNGELO –

    Todas. Ele é esperto o suficiente para ser legal com você e ganhar sua confiança para depois, na corrida, não ajudá-lo. Trabalha com a equipe, está sempre antecipando as estratégias dos outros carros e é extremamente focado no que interessa para ele.
    Ele sempre quer mais, pede mais, corre atrás, enche o saco e, se tiver força na equipe, consegue tudo.

    • Acho que ele é o que menos pode falar sobre isso, é um bobão.

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