Emerson Fittipaldi – Construindo um legado

Já é de conhecimento popular que o Brasil é um país com uma história muito rica na Fórmula 1. A safra do glorioso trio de campeões Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, talvez o melhor de todos os tempos, são uma prova mais do que sólida da tradição do Brasil com pilotos bem sucedidos na F1, saga que começou em 1951 com o grandíssimo Chico Landi pilotando uma Ferrari em Monza.

Mas foi só em 1970, quando ainda se festejava nas ruas o tricampeonato mundial de Seleção Brasileira na Copa do Mundo, que o Brasil entrava realmente na galeria dos países triunfantes no esporte que discutimos aqui diariamente. E quem descobriu o caminho das pedras e abriu um grande interesse a uma modalidade quase inócua antes, foi ele, Emerson Fittipaldi.

“Emmo” projetou, em menos de 6 anos, uma carreira vitoriosa no Brasil e exterior antes de estrear na F1 sob os olhos do observador Colin Chapman, que após um único teste já o contratava como segundo piloto da Lotus em 1970.

Não fosse a tragédia naquele ano, Emerson talvez não subiria tão facilmente ao posto de piloto número 1 dentro do time. A morte de Jochen Rindt no GP da Itália foi um abalo sísmico na estrutura que Jochen estava construindo na Lotus, marcando impressionantes vitórias seguidas no seu ano de ouro. E não foi por acaso que conseguiu o campeonato póstumo, ausente nas últimas 4 corridas do ano.

Fittipaldi, mesmo assim, cumpriu o papel de defender o título do colega com unhas e dentes- venceu o GP dos Estados Unidos e deu a taça para Rindt e o campeonato de construtores à Lotus, além de ter marcado na galeria de vencedores a sua primeira vitória na Fórmula 1 com apenas 23 anos.

E a precocidade acabou sendo marca registrada na geração Fittipaldi, apesar de não ter sido seguida pelos seus sucessores- em tese, Senna e Schumacher também mostraram seu talento jovens, mas seria apenas em 2005 que Fernando Alonso bateria o seu recorde de campeão mais jovem, algo que seria alcançado em 1972.

Antes disso, em 1971, o trabalho com a Lotus se fixava em parâmetros mais sólidos, e a liderança da equipe já era sua. Os resultados não foram convincentes, apesar de três pódios, e o campeonato acabou ficando nas mãos do escocês voador Jackie Stewart, a bordo de sua Tyrrell, que massacrou a concorrência e seria o adversário de Emerson na disputa pelos títulos de 72 e 73.

No primeiro confronto de duelos espetaculares, Lotus e Tyrrell fizeram um confronto memorável com suas duas estrelas- o novato Fittipaldi, com apenas uma vitória no currículo pelo lado de Colin, e o então bicampeão Stewart e amplo favorito pelo seu título no ano anterior, pelo time de Ken.

Foi neste ano que o mundo da Fórmula 1 começou a ver o Brasil com outros olhos- mais refinados e com ares vitoriosos impulsionados pela incrível temporada do “Rato Voador”. A Lotus 72 dourada e preta virou símbolo nacional. Colin Chapman, guard-rail, downforce, grid, warm-up e pressão aerodionâmica entraram nos papos cotidianos e a paixão foi crescendo a uma grande velocidade- E não só no Brasil, como na Europa.

Isto graças a incrível coleção de 5 vitórias no velho continente, mais precisamente na Espanha, Bélgica, Inglaterra, Áustria e Itália. Jackie venceria quatro, porém 3 delas na América.

Assim, mesmo não somando pontos nas últimas duas corridas, Emerson catapultou-se ao posto de número 1 do mundo e se tornava o mais jovem campeão da história, recorde que permaneceria por 33 anos na galeria de feitos na F1.

Ao mesmo tempo o Brasil também entrava ao calendário oficial, já em 1972, e assistira posteriormente 2 vitórias do ídolo nacional já consagrado.

O duelo Fittipaldi x Stewart já tomava contornos grandiosos e em 1973 foi Jackie quem venceu a batalha e se alçou, em uma curta carreira de 99 corridas seu tricampeonato, com 5 vitórias contra 3 de Emerson, que perdeu espaço para o colega de equipe Ronnie Peterson, autor de 9 Pole-Positions e 4 vitórias nas 15 provas da temporada.

Desse modo a troca de ares era marcada e o novo lar seria a McLaren, onde com o M23 rapidamente já alcançaria sucesso- bicampeão mundial em 1974 em cima de Clay Regazzoni (Ferrari) por 3 pontos, onde conquistou três vitórias e virou, para reforçar o sucesso dos últimos anos, definitivamente o mais novo herói nacional nas pistas.

Em 1975 a Ferrari cresceu e Lauda foi campeão com ampla vantagem para Emerson, que finalmente encerrava sua etapa vitoriosa na Fórmula 1 com dois triunfos- Argentina e Inglaterra, os últimos de sua carreira deslumbrante como piloto da Lotus e McLaren até ali.

Fittipaldi também foi um marco em sua época por assumir a empreitada de criar uma equipe de Fórmula 1 brasileira, e com seu nome- A Copersucar-Fittipaldi.

O período de 5 temporadas (1976-1980) não foi fácil. Ficava claro que o Brasil não apoiava a equipe a os seus fracos resultados eram até motivos de chacota- e assim aos poucos a estrutura acabou decaindo.

Mas a verdade é que a pressão por não vencer uma corrida chegava a ser injusta e penosa para uma equipe sul-americana e sem um apoio sólido da nação, algo realmente curioso e desmotivador. Emerson encerrou sua carreira em 1980 de forma melancólica, com seu último pódio no GP dos Estados Unidos em Long Beach. A Copersucar fecharia as portas 2 anos depois, em 1982.

Apesar de tudo, e como se não bastasse o bicampeonato na F1, Emerson também foi um transgressor em outras categorias- principalmente a Fórmula Indy. Conseguiu ao longo de sua segunda carreira 22 vitórias e 17 pole positions, se sagrando campeão em 1989 com impressionantes 5 vitórias- e se tornando o primeiro brasileiro a marcar tal feito.

Seu bicampeonato nas 500 milhas de Indianápolis (89 e 93), apenas corroboram a tese de que Fittipaldi marcou uma era em sua época e o seu início juvenil lhe permitiu explorar outras fronteiras do automobilismo e ainda conseguir sucesso nelas, o que de passagem não chega a ser do desafios mais fáceis.

O Brasil acabou resgatando em seu sucesso repentino na F1 uma trilha vitoriosa de mais 6 títulos com Piquet e Senna, frutos do descobrimentos aos brasileiros de Emerson pela Fórmula 1. O interesse, naturalmente, acabou crescendo com força e puxando esses novos talentos, que abriram mais portas e são a influência, por meio das gerações, para os pilotos do país na Fórmula 1.

Em suma, não há dúvidas que Fittipaldi construiu um legado maravilhoso de vitórias com sua própria garra e talento além de ter sido o desbravador do automobilismo internacional no Brasil desde a década de 70.

12 comentários em “Emerson Fittipaldi – Construindo um legado

  1. Que bom ver um artigo sobre ele. Meu pai sempre me falou muito sobre ele.
    Infelizmente muita gente se esquece dos campeões do passado, de quem primeiro fez história.

    🙂

  2. Excelente post, Tomás!

    Estou com um semelhante na cabeça sobre essa questão do legado. Será cada vez mais difícil para um brasileiro chegar a Fórmula 1, pois o automobilismo brasileiro está muito mal.

  3. Muito bom o post. Fittipaldi é um dos melhores da história da Fórmula 1 com certeza. Infelizmente, a falta de apoio do pais prejudicou muito o crescimento de sua equipe que mostrava ser capaz de algo além do que fez na Fórmula 1.

  4. Mais uma vez belo trabalho Tomás sobre esse ícone do esporte Brasileiro. Com certeza sem ele não estaríamos aqui falando sobre F1.

  5. Tomás, eu sabia que o post seria bom, mas não pensei que seria tão bom como ficou. Bela homenagem ao Emerson, que é o “pai” da F1 no Brasil. Seu pioneirismo trouxe muita alegria ao nosso povo e sua carreira mostra que nunca é tarde pra se começar e que nunca devemos baixar nossas cabeças.

    Seu legado é um exemplo a ser seguido. Tudo que o Brasil conquistou no esporte a motor se deve a sua coragem de enfrentar obstáculos e de desbravar novos caminhos. E homenagens a ele serão sempre bem vindas.

    Parabéns Emerson Fittipaldi.

    Parabéns Tomás.

  6. Um grande piloto. Como acompanho corridas em geral desde 1993, ainda pude acompanhar o Emerson na Fórmula Indy. Por ser o primeiro brasileiro a ganhar um título mundial na Fórmula 1, tornou-se o precursor do nosso país lá fora.

    Nelson Piquet e Ayrton Senna também tiveram contribuição, e ambos sempre tiveram respeito e admiração pelo Emmo.

    Legal o texto.

  7. Ótimo post! Sempre é bom resgatar um pouco da história da F1, principalmente para aqueles que não são leigo sobre o assunto.

  8. Parabens Tomás pela lembrança, Emerson merecia essa homenagem, afinal, abriu as portas do automobilismo internacional e foi seguido por outros brasileiros, que tambem triunfaram lá fora. A saga de Emerson merece ser mais conhecida por todos aqueles, que se dizem apaixonados por automobilismo. Os bons e maus momentos, que Emerson enfrentou em sua carreira, só fizeram aumentar o respeito, que sempre nutri por esse grande campeão. No Brasil, mesmo os campeões, são muito mal tratados pela torcida, e Emerson é um bom exemplo disso, apesar de todo o seu curriculo, quando quiz dar um passo adiante e construir um carro, tornou-se um digamos “Rubinho” da FI. Injusto o que fizeram com esse grande esportista brasileiro, que para variar é mais cultuado fora do Brasil. Um dia, isso há de mudar, chegara uma hora, em que o brasileiro vai começar a dar mais valor para os compatriotas e ai quem sabe, o Brasil não volta a vencer na FI., com bons pilotos e grandes patrocinadores a lhes darem sustenção, como os pilotos estrangeiros.

  9. Tomás, adorei você ter lembrado do piloto mais importante do Brasil no automobilismo, só faltou falar dos títulos de Gil de Ferran e do Tony Kanaan na Indy e as vitórias do Helio Castroneves nas 500 milhas de Indianápolis.

  10. Obrigado pelos elogios quanto ao post pessoal, andei meio ocupado para estar presente na sessão de comentários nos últimos dias mas já estou voltado a “normalidade”.

  11. Show de bola o artigo, Tomás.

    Esse aí é o cara. Volta e meia o Sportv reprisa umas entrevistas com o Emerson, que a gente assistindo em casa se emociona. Ele fala do Colin Chapman como se fosse um pai pra ele, e também fala de quantos amigos ele já perdeu na pista, e de seu fascinio por Brands Hatch.

  12. Grande Emersom. Não fosse ele, nós brasileiros talvez nem soubéssemos o que é a F1 e F Indy…Só sinto mesmo, pela falta de apoio que ele teve quando na Copersucar!! Pela foto do carro dá prá ver que pouquíssimas empresas apoiaram a idéia, são pequenos patrocínios e somente a Goodyear (que era o pneu usado naquele ano). Mesmo assim conseguiu vários feitos, 3 pódiuns, pontuação melhor que muitas grandes, mas o mais marcante foi em 1978 (se não me engano) chegar em segundo no Rio! Saudades desses bons tempos de F1!!!

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