Saúde Mental: Pilotos e público são vítimas do cansaço mental

(Imagem: Getty Images) 

A obra “Sociedade do Cansaço”, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, trata-se de um alerta que está entre a nossa sociedade: o cansaço mental. Vivemos em um mundo onde somos cobrados (por até nós mesmos) a estarmos bem, no entanto, pagamos um preço pelo esgotamento e o adoecimento psíquico. Setembro é o mês da conscientização do bem-estar mental, há pessoas que não buscam ajuda, devido ao julgamento que sofrerá ou por pensar que não é necessário. Esse assunto ainda é um tabu social, principalmente no automobilismo. 

Na segunda imagem, capacete usado por Lando Norris em pró da saúde mental (Imagens: Getty Images) 

Alguns pilotos se posicionaram sobre essa questão, como o piloto britânico da McLaren, Lando Norris. No início desse ano deu uma entrevista para o portal de notícias da Fórmula 1, explicou sobre suas dificuldades de saúde mental, principalmente em sua temporada de estreia em 2019 e como tem sido bom em trabalhar com a instituição escolhida pela equipe que foca na questão da saúde mental, chamada Mind.  

Lewis Hamilton também sempre expressou suas opiniões sobre esse tema. Em suas redes sociais, postou um texto desabafando sobre seus desafios emocionais, principalmente sobre a perda do título na última temporada, relatou que tem sido um ano difícil com os acontecimentos ao seu redor e que sempre lutou com problemas de saúde mental. O piloto foi vítima de diversos ataques racistas nas mídias sociais durante o campeonato, resolveu se ausentar durante um período e retornou apenas em fevereiro deste ano. 

(Imagem: Motorsport Images) 

Em uma entrevista recente ao jornal alemão Blid, Sebastian Vettel comentou que as estrelas do esporte são muitas vezes desencorajadas a discutir questões de saúde mental e que considera essa relutância uma “fraqueza da sociedade”. O alemão ainda acrescentou “Se você quebrar uma perna, você vai ao médico. Seria sensato ver o que me impede de quebrar minha perna em primeiro lugar. Parece que não estamos fazendo o mesmo quando se trata de saúde mental.” 

Com a expansão do calendário, que no próximo ano teremos 24 corridas, será bem mais cansativo fisicamente e mentalmente, principalmente para os mecânicos, que trabalham em média 12 horas por dia, de quarta-feira antes da corrida até a noite de domingo após. No último ano, a revista britânica Autosport trouxe um relato em anonimato de um mecânico que atualmente trabalha na Fórmula 1. No depoimento, ele relatou que há noites mal dormidas, jornadas longas de trabalho, medicamentos e álcool para mantê-los ativos. Ao final, alertou “Alguém pode perder a vida” 

O aumento de GPs é bem interessante para a organização, no entanto, devemos ter limites. Chegaremos a um ponto que além de mecânicos, engenheiros e até a imprensa não vão suportar viajar durante o ano todo. Além disso, podemos ter mais profissionais com Burnout, a síndrome do esgotamento profissional, que atinge grande parte da população ativa.  

Na temporada de 2021, que foi uma das mais competitivas da história da Fórmula 1, tivemos diversos ataques nas redes sociais entre as torcidas de Lewis Hamilton e Max Verstappen, os pilotos que estavam disputando o título. O que era para ser algo saudável e divertido, se transformou em um cenário de guerra, onde tivemos diversos casos de crimes como racismo, machismo e homofobia. As vítimas desses ataques, tiveram a sua saúde mental afetada. 

No meu caso, sempre gostei de comentar, participar de debates pós corridas, rir e postar memes para meus amigos na minha conta no Twitter. Era uma boa distração, no entanto, na edição de 2021, foi o período em que mais me ausentei. Perdi as contas quantas vezes me estressei, chorei e fiquei mal o dia todo, devido a uma postagem racista que li. Minha saúde mental ficou horrível, depois disso, decidi me afastar e comentar apenas com pessoas próximas a mim. 

Depois de algumas pesquisas e conversas com meus amigos, descobri que não foi apenas eu que senti esses impactos durante esse campeonato. Perguntei a algumas pessoas como foi a experiência deles em relação a isso e me mandaram relatos: 

Stephany, estudante de 21 anos: 

“Como mulher racializada todos os anos são cansativos, mas ano passado foi extremamente traumatizante. Confesso que por muitos momentos após o fim da temporada do ano passado, pensei em me afastar do esporte, sentia que não tinha energia o suficiente para viver em um ambiente tão hostil e agressivo. Ver ataques raciais ser direcionados a outra pessoa é sempre desesperador, principalmente quando você se identifica de alguma maneira com ela. É muito complicado ver seu piloto, que é fonte da sua inspiração, ser covardemente atacado e não poder fazer nada. No final, não é um ataque somente a um piloto racializado ou outro, mas sim, a todas as pessoas de cor que assistem um esporte, que deixa claro que você não é bem-vindo, é como se gritassem na nossa cara “aqui não tem lugar para você”. Desde 2021 algo mudou, não é igual. Ainda tenho crises de ansiedade ao me lembrar de alguns momentos, como por exemplo as vezes que fui atacada nas redes sociais. Não sei se o tempo vai curar o trauma, mas sei que acompanhar fórmula 1 jamais será igual depois do ano passado. Me deixa muito triste admitir isso, mas é a verdade.” 

Sammantha, 22 anos, estudante de Direito 

“Confesso que gostaria de relatar como foi vivenciar a temporada de 2021 de forma positiva, mas não consigo ignorar situações que transpassam o esporte em si. Algumas pessoas costumam dizer que, quando você não está tão bem mentalmente, o ideal é buscar um certo conforto em algo que te acalme, ou procurar novos passatempos e eu consegui encontrar isso na F1. O que antes não passava de “uns carrinhos muito chatos passando um do lado do outro” veio rapidamente a se tornar o meu novo hobbie favorito, o meu escape. A sede por aprender minimamente cada detalhe, sobre cada tipo de pneu, cada significado por trás das bandeiradas coloridas e cada volta cronometrada, parecia nunca ser saciada, pelo contrário, meu interesse apenas crescia cada vez mais. E claro, sempre ao lado do que me fez começar a acompanhar o esporte, que foi a admiração que sentia (e sinto) pelo Hamilton. Um cara negro, que tem uma voz ativa voltada para causas sociais necessárias e de queda o mais bem sucedido dentro de uma categoria tão elitista, me fez pensar o quão forte ele é, o quanto ele teve de aguentar calado, o quão corajoso ele é por se orgulhar de sua cor e não abaixar a cabeça para o primeiro que tentasse desmerecê-lo por isso. Me fez sentir representada era como se eu o visse e pudesse afirmar “é um dos meus ali”.

A temporada de 2021 até então parecia magnífica, absurda em um sentido positivo, não havia estabilidade de apenas um piloto, haviam batalhas a todo momento entre o mais novo heptacampeão e um jovem sedento por conquistas, mas em certo momento, pós Silverstone sendo mais específica, as coisas mudaram, os comentários, as “piadinhas”, as reclamações – ainda que de forma velada por parte de outras pessoas ligadas ao esporte e de vínculos midiáticos – , as vaias, os planejamentos de ataques com legumes por parte da própria comunidade de “fãs” e tudo isso sendo direcionado à apenas um piloto em específico, fez com que todo o encanto, até então construído em mim, aos poucos foi se deteriorando. A partir disso comecei a ter outra visão, de que encontraria um conforto maior apenas em Lewis. E isso me fazia bem, porque confiava e sabia que ele sempre daria o melhor de si, que jamais desistiria e lutaria até o fim, afinal ele teve de aprender a sempre ser assim.

Até então, considerava esse infeliz momento como uma das piores experiências já tida como torcedora, mas em dezembro de 2021, no dia 12, tudo mudou e foi para pior.  A recuperação de Lewis e de sua equipe, Mercedes era de tirar o fôlego! Após momentos em que tudo parecia estar perdido, como uma fênix eles ressurgiram e conseguiram levar a tão esperada disputa pelo título de novo campeão mundial à ser decidida na prova final, na última da temporada. Era algo insano, muito além do que qualquer um imaginou que aconteceria. Tudo corria bem para o piloto britânico, que até então possuía uma ótima vantagem a frente de seu rival direto da temporada. Faltando muito pouco, certamente de conhecimento geral, uma batida mudou toda a trajetória, uma permissão equivocada, uma quebra de regulamento e um “erro humano” foi capaz de gerar não só um dos maiores escândalos esportivos já televisionados, mas também um misto de sensações, sentimentos, pensamentos ruins, traumas.

Esse momento me marcou muito, de uma forma dolorosa que jamais vivenciei em nenhum outro esporte. O que antes era refúgio, virou um poço sem fundo. Era como se tivesse presenciado um roubo de um doce tão desejado das mãos de uma criança. Mesmo que ela tivesse se esforçado muito para conquistá-lo. E ainda sim aquele homem, tão criticado, se manteve de pé e demonstrou uma humildade e resiliência que não se vê nesse mundo com tanta frequência. Posso afirmar com todas as letras que esse foi um dos piores dias do meu ano.

Não é apenas um esporte, vai e sempre foi muito além disso. Não é besteira, não é “desespero por atenção “, não é “choro”, só quem está acostumado a ter de sempre ser o melhor para poder ter um reconhecimento mínimo e fazer o impossível se tornar possível entende. Nesse momento doloroso mentalmente, infelizmente sempre se fará presente, mas ainda assim NOS LEVANTAMOS.” 

Laiza, estudante de 18 anos  

“Uma das coisas que me fazia assistir uma corrida de F1 em 2021 era o pensamento: qual será o sentimento que Lewis Hamilton me proporcionará hoje? Adoro a categoria, o conceito, a adrenalina, mas amo e vibro muito mais quando vejo que um piloto talentoso não está seguindo o esperado, indo contra qualquer padrão estipulado. A voz de Lewis na F1 foi um desenrolar pessoal para ele e quando eu assisti o único piloto negro da história da categoria, usar cada uma de suas sessões para levantar questões, assuntos que muitos ainda veem como política, para um bem universal, então eu apenas percebi que apoiava a pessoa certa.

A intensidade da temporada de 2021 foi deliciosa, não saber do que viria acontecer, os momentos que tudo mudava. Pessoalmente, gritei em cada vitória de Lewis Hamilton, pole e a primeira colocação nos treinos, como se fossem os últimos. O que mais me marcou foi a forma como Lewis lidou com cada derrota e como elas foram um combustível para o levantar que ele mesmo sempre citava. Não há a opção desistir no vocabulário de Lewis e a cada vez que ele deixava isso explícito, eu levava para minha própria vida, seja uma declaração pós corrida ou um post nas redes sociais. Lewis não pedia incentivos, ele incentivava, ele empodera tantos a serem maiores do que a sociedade deseja, é a prova de que quando você escolhe a si mesmo acima de qualquer regra, você se torna revolucionário. Revolucionário para se tornar o primeiro piloto negro a ganhar uma corrida na F1, por nunca abaixar a cabeça em um esporte dominado por brancos, por não aceitar ser único e buscar maneiras de levar minorias para o mesmo lugar que ele.

É como Lewis disse: “Para todas as crianças que sonham o impossível, você também pode fazer isso.” E, por saber exatamente como o sistema funciona, o fim da temporada de 2021 não me surpreende. Mas, dói. Lewis fez seu caminho para a recuperação e eu sabia que ele conseguiria — ele conseguiu. A recuperação daquele homem que sabia que precisava vencer as corridas restantes e não podia cometer erros, a forma como ele acreditou, persistiu, agarrou. A F1 teve seu novo campeão branco e o desespero era gigante, foram anos assistindo uma minoria no topo, as regras não seriam tão importantes.

Lewis Hamilton quebrou qualquer padrão estipulado na F1, ela quebrou as regras para tentar pará-lo e honestamente? Eles falharam. Lewis já era odiado antes de entrar na F1, antes de ter fãs, o racismo explícito ou velado sempre buscou o alvo nas costas dele, mas ele nunca desistiu. Assistir o fim de 2021 da F1 foi perceber que não é mais pelo esporte que ligo a TV. Antes, o sentimento mais forte do meu domingo vinha do resultado de uma corrida, de como meu esporte favorito me fez sentir, da loucura que se arrastava por boas horas pós corrida.

Bem, agora eu realmente não me seguro mais e admito que se estou assistindo a uma corrida, é para saber o que Lewis Hamilton fará para me fazer agradecer a Deus por viver na mesma época que ele e poder contemplar o maior piloto de F1 da história!” 

Maria Eduarda, estudante de 18 anos 

“A temporada de 2021 da fórmula 1, me fez passa por sentimentos que eu nunca pensei que iria sentir assistindo carros. Lewis começando uma nova temporada, após sua vitória no último ano, o clima obviamente ainda era estável após desafiar a FIA e realizar protestos silenciosos pela causa do movimento Vidas Negras Importam, o que rendeu muitas críticas era óbvio que isso não iria passar batido nessa temporada. Um novo rival para ele bater, que precisa tirar o título de “promessa” das costas, seria uma temporada perfeita. Lewis me ensinou a ter a mentalidade que não importa o quão grande somos, ser não tive humilde você não é não, não tenha vergonha de mostrar seu lado fragilizado. Ver que fazem de tudo para te ver cair não é fácil, manter a cabeça erguida enquanto puxam ataques racistas para você na internet, quando te acusam de usar drogas, quando na última volta da corrida roubam e mesmo assim sair do carro, ir apertar a mão daquele que não merece seus parabéns, não é qualquer um que pode fazer isso. Lewis nessa temporada ensinou que está tudo bem você mostrar sua fragilidade, a sempre tem esperança mesmo que você não tenha 1% de chance. O caminho nunca foi de ouro e quem realmente batalhou para esta no topo sabe dar valor, saber o tempo de briga e de se retirar.” 

As organizações esportivas devem dar mais atenção a esse tema e principalmente, indicando profissionais da área para os atletas. Sem uma mente boa, nosso corpo não reage de forma correta e os resultados consequentemente não vem da forma esperada, assim como cuidamos rapidamente de uma ferida física, devemos fazer o mesmo com a nossa mente. Esse alerta também serve para o público, quanto mais procuramos ajuda em relação a nossa mente, não seremos as próximas vítimas da sociedade do cansaço.   

_____________________________________________________________

Joyce Rodrigues é uma carioca de 19 anos, que está cursando o primeiro período de jornalismo. Ama escrever sobre esportes. A Fórmula 1 é uma das suas maiores paixões desde os seus 14 anos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: