F1: o dilema entre a chegada de novos pilotos talentosos e as poucas vagas do grid

Gabriel Bortoleto, uma das grandes promessas do Brasil no automobilismo mundial

Em 2024, houve o fim do contrato de vários pilotos da F1 atual, sendo possível ver a boa atuação de vários pilotos da base em corridas de F1, substituindo pilotos titulares e também outras jovens promessas tendo bom desempenho na F2. Apesar de alguns pilotos da base já terem contrato para o ano que vem (o que é algo raro, pelo que foi visto nos últimos anos), uma grande parte vai ficar sem lugar na F1, porque as vagas ainda são escassas: A categoria possui ainda apenas dez equipes, com duas vagas cada uma.

Contudo, a F1 ainda se fecha para a entrada de novas equipes. Apesar de a FIA ter escolhido a Andretti para ser a décima primeira equipe do grid, esta foi barrada pelas equipes que não queriam dividir os lucros. Para manter a fama de categoria mais competitiva do mundo, é necessário que a F1 renove-se com a entrada de mais equipes, para que existam mais vagas na categoria e também permita uma renovação mais constante do grid para ter uma garantia maior de retenção de talentos. 

​Nos últimos dois anos, foi possível ver o surgimento de vários jovens talentos na base. Entre eles, Oliver Bearman, Liam Lawson e Franco Colapinto, que estrearam em corridas de F1 entre 2023-4. Na F2 também há várias promessas, desenvolvidos nas academias das equipes de F1, como IsackHadjar, Kimi Antonelli, Jack Doohan e, inclusive, o brasileiro Gabriel Borboleto, que após o GP de Azerbaijão, lidera o campeonato de F2,  entre outros. A verdade é que a renovação do grid da F1 nos últimos anos se mostrou pífia, principalmente porque eram poucas vagas  e os times, conservadores, preferiam contratar pilotos experientes. Mas, devido a imprevistos com pilotos titulares, foi possível ver excelentes atuações de pilotos da base em corridas oficiais de F1 e, por isso,  o interesse pelos jovens pilotos foi despertado nas equipes novamente.

Felipe Drugovich foi campeão da F2 em 2022, mas, até agora, não conseguiu vaga na F1

Um fenômeno que se tem observado recentemente é que piloto campeão da Fórmula 2, nos últimos dois anos, não conseguiu ter acesso à F1, e o de 2019, Nyck de Vries, conseguiu ser piloto titular quatro anos depois, após circunstâncias muito especiais. Infelizmente, o patrocínio tornou-se bem mais importante do que era no passado para ter acesso à vaga na F1 (sem que o talento tenha deixado de ser importante).  Por isso, é essencial um aumento no número de vagas para que a F1 retenha mais talentos.

Com relação a esse tema, a FIA chegou a abrir um processo seletivo para novas equipes em 2023, o plano era que o grid alcançasse o número de até doze equipes. A equipe Andretti, com muita tradição no automobilismo mundial, foi a escolhida em outubro de 2023. Contudo, apesar da chancela da FIA, em janeiro de 2024, a Andretti foi vetada pelas equipes de F1com o argumento de que a equipe estadunidense não agregaria valor à F1, mas a Andretti seria mais beneficiada por expandir a visibilidade dela que a própria F1. Este é nitidamente um argumento falacioso, porque a Andretti possui uma sólida história no automobilismo mundial.

A nova fábrica da Andretti em Silverstone.

A Andretti Global compete na IndyCar, Indy NXT, Fórmula E, Extreme e inscrições conjuntas na IMSA SportsCars. A Andretti Global possui mais tradição e valor agregado que algumas outras equipes que estão hoje na F1, atualmente possuem, como a Haas, por exemplo. O real motivo pelo qual a Andretti não foi aceita é porque as equipes não querem dividir o orçamento anual que elas recebem com novas equipes.  O presidente da FIA, Mohammed ben Sulayem, inclusive, em maio deste ano, mudou o discurso e junto com  as equipes começou a defender que a Andretti entre na F1 pela compra de outra equipe, o que já distorce a ideia de expansão do grid.  

Além disso, o Congresso americano enviou uma carta, em maio de 2024,  à entidade detentora dos direitos da F1, Liberty Media, que indagava os motivos da Andretti não ter sido aceita no campeonato, já que ela preencheu todos os quesitos da seleção. Naquele momento, o Congresso americano também ativou A Lei Antitruste de 1890, que visa proteger a concorrência dos monopólios injustificados. Tendo isso em vista, é importante considerar que a F1 busca explorar um mercado importante nos Estados Unidos e o país já sedia anualmente três corridas da principal categoria de automobilismo.

​Considerando tudo isso, é urgente que a F1 procure ter um grid com um número mais robusto de carros. As equipes têm lucrado bastante nos últimos anos, contudo, em tempos de crise financeira, corre-se o risco de não se ter um grid com um número de carros aceitável para uma corrida. É notável que tanto a F1, quanto o público, quanto os pilotos perdem quando excelentes talentos da base são obrigados a procurar outras categorias porque a F1 não busca renovação, seja pelo número exíguo de vagas, seja pela mentalidade conservadora dos times. Tendo isso em vista, é necessário que a imprensa, o público da F1, e até futuras equipes postulantes a F1 em potencial se unam para que a categoria rompa com essa ideia de monopólio, haja mais renovação de pilotos e mantenha-se o alto nível de competitividade, de espetáculo e de esportividade. 

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Ester dos Santos é mestranda em Ciência Política, na UnB, acompanha Fórmula 1 desde 2009 e ama falar de automobilismo, política e assuntos afins.

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