O Dia Internacional da Tolerância e a Intolerante Fórmula 1 

No dia 16 de novembro se comemora o Dia Internacional da Tolerância, data estabelecida pela Unesco em 1966 para lembrar celebrar a diversidade e a democracia e combater os preconceitos de etnia, gênero, religião e de toda ordem. Mas a principal categoria de automobilismo mundial, que possui o auge da tecnologia dos carros e viaja por vários países pelo mundo (não só ocidentais, mas por várias nações orientais), é um grande exemplo de intolerância e de anacronismo com os valores progressistas e prática discriminação com as minorias.

É notório que, em mais de setenta e cinco anos de F1, houve até hoje apenas um piloto negro e cinco pilotos mulheres oficialmente na categoria. Os discursos racistas, misóginos1 e capacitistas2 são comuns, e as expressões de protesto no paddock são rigorosamente reprimidas e os pilotos, tristemente, infantilizados. Os efeitos desse sistema coercivo na Fórmula 1 são sentidos tanto por pilotos, como pelo público, este que muitas vezes se submete a péssimas condições para assistir corridas por ser aficionado do esporte. Neste sentido, a solução para toda essa intolerância, de forma alguma, é simples ou rápida, contudo, é um processo que passa por membros do paddock e público da F1 que desejam superar as lideranças e estruturas conservadoras atuais da categoria. 

Em relação às minorias, a Fórmula 1 sempre se mostrou muito preconceituosa com quem fugisse do grupo social dominante, o “homem-branco-hetero-sem deficiência”. Desde as categorias de base do automobilismo, erros cometidos por qualquer integrante das minorias é normalmente entendido como uma característica de todas as pessoas daquele grupo. É assim que o preconceito social funciona. Uma ideia pré-concebida que se tem a respeito de algo e normalmente é um mito com uma base irracional. A cor da pele, por exemplo, só faz sentido em uma sociedade marcada étnicamente, é algo tão “natural”, como o formato do nariz ou da boca.

É fácil imaginar como o preconceito é absurdo com o seguinte exemplo: imagine que antes de Alain Prost (tetracampeão e grande rival de Ayrton Senna na McLaren) houvesse um piloto fisicamente parecido com ele, com as características do nariz grande e o cabelo liso, mas com tanta aptidão para o automobilismo como o piloto Lucas Badoer3. Se houvesse uma espécie de discriminação contra pessoas de cabelo liso e nariz grande, este “Lucas Badoer” seria a “prova” do fracasso de pessoas de cabelo liso e nariz grande para o automobilismo, e Le Professeur Prost possivelmente seria mais um excluído pela lógica do preconceito, até porque suas chances de ascensão na vida também seriam outras.  

Deste modo, pode-se observar como é ridículo e revoltante esse tipo de discriminação. Todavia, é assim que opera o racismo estrutural, assim como o machismo estrutural – e eu diria o capacitismo estrutural também -, sistemas que alinham todo o funcionamento e forma de pensar e se posicionar numa sociedade – de forma que se exclui uma grande parte das pessoas, que são seres humanos com talento e dignidade. Contudo, alguém poderia dizer que o sistema de escolha na F1 é meritocrático, afinal, o heptacampeão Lewis Hamilton, piloto negro, está na Fórmula 1 há mais de quinze anos. Entre os argumentos que podem ser apresentados contra isso é que ele é o único piloto negro oficial durante toda a história de mais de setenta e cinco ano na principal categoria de automobilismo.

A entrada de Lewis Hamilton na F1 envolveu um alinhamento de um esforço do pai, Anthony Hamilton, que trabalhava em três empregos para sustentar o esporte do filho mais velho, o talento e a resiliência fora do normal de Lewis que o fizeram assinar com a McLaren aos dez anos de idade, equipe que patrocinou sua entrada na F1 – o que não impediu que o próprio piloto também tivesse que trabalhar e estudar enquanto participava (e ganhava troféus) nas categorias de base. É óbvio que essas mudanças são também socioculturais, dificilmente a McLaren, por mais que buscasse talentos para ocupar seu cockpit, investia fortemente em uma criança negra dentro de um programa de pilotos nos anos 1960-70 – e as condições da população negra eram ainda mais degradantes. Willy T. Ribbs foi um grande precursor de outras minorias ao ser o primeiro piloto negro a testar um F1 em 1985, da Brahham BT54.

Todavia, um argumento é essencial de se reportar aqui: Lewis é um heptacampeão com habilidades naturais bem acima da média da maioria dos pilotos e, mesmo assim, ainda sofre muito racismo e preconceitos em geral dentro da categoria. Ele é “tolerado” por muitos, por causa de seu histórico de conquistas. A F1 é conhecida por ser uma categoria muito exigente, contudo, nesse período em que Hamilton está na categoria, dezenas de pilotos brancos ruins, médios e bons passaram por lá, vários tendo até mais de uma chance. 

A Fórmula não só não teve a mesma paciência com pilotos negros (as) e mulheres que mantém com pilotos homens brancos, como, na verdade, não lhes dá sequer oportunidade de participar da categoria, com exceção de Lewis Hamilton há décadas. Com isso, há de se lembrar que, recentemente, no Brasil, foi lançada uma campanha de mulheres negras precursoras, como Taís Araújo, Conceição Evaristo, entre outras, com os dizeres: “Eu fui a primeira, e quem virá depois?”. É preciso parar com discursos racistas, xenofóbicos, machistas e capacitistas e dar mais oportunidades para que mais talentos apareçam.

A Ferrari, sobre o Desafio Girls on Track, que seleciona talentos para a Academia Ferrari Driver Academy (FDA), já afirmou que meninas pilotos já fizeram tempos melhores que rapazes pilotos como Charles Leclerc e Mick Schumacher, em condições parecidas. Por essa razão, é bem evidente que as condições socioculturais e econômicas são uma grande barreira para o desenvolvimento das moças pilotos, que enfrentam mais barreiras atitudinais e dificuldades de encontrar patrocínio que os rapazes pilotos. Contudo, as mudanças são implementadas gradualmente no imaginário popular com políticas educativas contra os preconceitos e são necessárias, adicionalmente, medidas estruturais eficazes para se garantir que mulheres, negros e pessoas com deficiência possam participar do paddock em diferentes funções.  

Além disso, a direção conservadora da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) procura manter boas relações com os países que sediam as corridas e, por isso, proíbe manifestações de protestos sociais e, até mesmo, infantiliza os pilotos para que estes se adequem aos costumes que ela considera mais relevantes. O heptacampeão Lewis Hamilton e o ex-piloto tetracampeão Sebastian Vettel já foram várias vezes advertidos por manifestações relacionadas a minorias sociais ou contra o sistema político dos países autoritários de eventos que a F1 sedia. O objetivo da FIA é passar uma suposta ideia de neutralidade política, ao mesmo tempo em que o presidente da entidade se alia a governos considerados legítimos e convenientes para ele, como o Trump nos Estados Unidos.  

Adicionalmente, a infantilização dos pilotos começou com a implementação de normas como a proibição de acessórios como joias, piercings, relógios (Lewis Hamilton, pelo seu estilo de se vestir, era nitidamente um alvo dessa política). Depois a proibição de falar palavrões no rádio e até de falar mal da FIA em entrevistas. Dessas proibições, apenas a proibição de se falar mal da FIA em entrevistas se manteve mais plenamente. Em todas as outras normas, as reações de revolta dos pilotos obtiveram um resultado mais eficaz por flexibilização ou suspensão das normas. 

Por último, é necessário afirmar que a Fórmula 1 também possui uma relação abusiva com seus fãs, especialmente, para com aqueles que frequentam os autódromos. Desde preços abusivos de ingressos, passando pela dificuldade de comprá-los, acomodações ruins em várias partes do autódromo, falta de segurança, até o risco de cancelamento da corrida e não ter o valor do ingresso ressarcido. E o prejuízo maior recaí sobre as mulheres, muitas vezes alvos de assédio de diversos tipos, apesar de a nova geração que tem acompanhado a Fórmula 1 ser cada vez mais jovem e feminina. É preciso que se estruture uma política de segurança para as mulheres e as populações mais vulneráveis que vão aos autódromos (como crianças, idosos), o que inclui pensar também os meios de chegada do público até os lugares da corrida.  

Com tudo isso argumentado, é sabido que cada lugar em que acontecem as corridas possuem especificidades e culturas próprias, por isso, não existem respostas únicas. De todo modo, para cada problema apresentado acima, é preciso que o paddock, o público da F1 e a mídia que cobre a categoria e os patrocinadores desta se unam para fazer uma Fórmula 1. Uma categoria tolerante e mais diversa é melhor para o todo, apesar de que os grupos dominantes hoje vão ter que ceder parte do poder deles. 

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Ester dos Santos é cientista política e idealizadora da consultoria Caminhos de Equidade. Além disso, acompanha Fórmula 1 desde 2009 e ama falar sobre automobilismo.

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