
No automobilismo, a paternidade costuma ser tratada como detalhe biográfico. A maternidade, não. Quando uma mulher pilota se torna mãe, sua ambição vira pergunta, sua forma física vira suspeita e sua continuidade nas pistas passa a ser julgada como se precisasse de autorização pública. Este artigo nasce dessa diferença: não para transformar mães pilotas em heroínas inalcançáveis, mas para defender algo mais simples e mais radical — o direito de escolher.
Mulheres podem continuar competindo depois da maternidade. Podem migrar para gestão, comunicação, formação de novas pilotas, chefia de equipe, comentários técnicos ou trabalho de bastidor. Podem começar a carreira depois de terem filhos. Podem pausar, voltar, sair, torcer, empreender, influenciar ou se dedicar integralmente à família e à vida pessoal. O ponto central não é provar que toda mulher deve permanecer nas pistas. É afirmar que nenhuma mulher deveria ser empurrada para fora delas apenas porque se tornou mãe.
Bia Figueiredo é uma das personagens mais importantes para pensar esse debate no Brasil. Ex-pilota da Indy, com passagens por Stock Car e caminhões, Bia se tornou a primeira mulher campeã da Copa Truck e também assumiu papéis institucionais relevantes, como a presidência da Comissão Feminina de Automobilismo da CBA e a liderança do FIA Girls on Track no Brasil.1 2 Sua trajetória mostra que maternidade e automobilismo não são opostos, mas também não romantiza a conciliação entre carreira, filhos, cobrança pública e vida pessoal.

Em entrevista à revista Crescer, Bia falou sobre o retorno às pistas depois da maternidade e descreveu o puerpério como um período mais difícil do que imaginava.3 Essa fala é importante porque tira a discussão do campo da frase motivacional. A maternidade não é apenas uma imagem bonita de superação; é também corpo, sono, logística, culpa, ausência de referências, julgamento social e negociação permanente com uma estrutura que ainda foi desenhada para homens.
Bia não voltou às pistas para provar que mães ainda podem correr. Voltou porque sua história no automobilismo não terminava no puerpério. Entre dois filhos, culpa materna, ausência de muitas referências e cobrança pública, ela seguiu competindo, venceu e abriu caminho para que outras mulheres não precisem tratar a maternidade como ponto final.
A força da história de Bia está justamente em não caber no clichê do heroísmo. Ela não precisa ser lida como exceção sobre-humana. Ao contrário: sua trajetória ajuda a revelar o quanto muitas mulheres compartilham a percepção de que conciliar maternidade e carreira esportiva é mais difícil quando a atleta é mulher. No caso das pilotas, a cobrança é ainda mais específica, porque o automobilismo já é um ambiente historicamente masculino, caro, seletivo e dependente de patrocínio, visibilidade e confiança técnica.

Essa assimetria também aparece quando o tema é a decisão de ter filhos. Danica Patrick, uma das mulheres mais conhecidas do automobilismo norte-americano, declarou à ABC News que congelou óvulos como forma de criar possibilidades para sua vida futura sem abrir mão da carreira no presente.4 A fala é relevante, mas também exige cuidado. Congelar óvulos pode ser uma alternativa para algumas mulheres, mas não está disponível financeiramente para todas, nem corresponde ao desejo de todas. O debate não pode transformar uma tecnologia reprodutiva em nova obrigação de performance.
Quando homens pilotos se tornam pais, a narrativa costuma ser diferente. Michael Schumacher, Sebastian Vettel, Max Verstappen e tantos outros tiveram ou têm suas trajetórias familiares mencionadas como parte da biografia, não como suspeita permanente sobre a capacidade de pilotar. Nico Rosberg e Casey Stoner, por exemplo, tiveram suas aposentadorias associadas também ao desejo de viver mais a família, mas a paternidade em si não destruiu o respeito esportivo construído por eles.5 6 No paddock, até existe a piada de que um piloto fica “dois segundos mais lento por volta” quando vira pai. Mas, para os homens, a paternidade raramente aparece como argumento público para questionar contrato, talento ou legitimidade.
Com as mulheres, a pergunta chega antes. A pilota será a mesma? Ainda terá coragem? Ainda aceitará risco? Ainda merece investimento? Ainda será competitiva? Essas dúvidas não surgem do vácuo: elas fazem parte de uma cultura esportiva que normaliza a família como suporte para homens, mas frequentemente interpreta a família como obstáculo para mulheres.
É por isso que o direito de escolha precisa ser protegido também quando uma mulher decide sair das pistas, pausar a carreira ou reorganizar a vida em torno da família. Sophie Kumpen, mãe de Max Verstappen, costuma ser lembrada apenas como a mulher de quem Max teria herdado o talento. Essa leitura é pequena demais para a trajetória dela.

Antes da maternidade, Sophie Kumpen foi uma kartista belga de elite. Venceu o Troféu Andrea Margutti em 1995 e competiu, no kart, contra nomes que depois se tornariam muito conhecidos na Fórmula 1 e no automobilismo internacional, como Jenson Button, Giancarlo Fisichella, Jarno Trulli, Nick Heidfeld, Jan Magnussen, Dario Franchitti e Christian Horner.7 8 9 Horner, hoje chefe da Red Bull Racing, afirmou que competiu contra Sophie no Mundial Júnior de Kart de 1989 e que ela estava entre os dez melhores pilotos do mundo naquela categoria.8 Jenson Button, campeão mundial de Fórmula 1 em 2009, também a descreveu como uma competidora muito forte no kart.8
Essa é uma correção importante: mais seguro do que chamá-la de “campeã mundial de kart em 1995” é apresentá-la como vencedora do Troféu Andrea Margutti em 1995, uma das competições internacionais de kart mais relevantes de sua geração, e como uma pilota que disputava espaço com nomes que depois chegaram ao topo do automobilismo.7 9 A precisão fortalece o argumento, porque mostra que Sophie não precisa de exagero para ser grande.
Sophie escolheu se afastar da própria carreira competitiva depois do casamento com Jos Verstappen e da maternidade. Essa escolha não deve ser tratada nem como fracasso nem como destino obrigatório. O ponto é outro: ela tinha trajetória, talento e reconhecimento antes de ser reduzida a “mãe de Max”. E, ao mesmo tempo, teve papel decisivo na estrutura familiar que permitiu a construção da carreira de um dos maiores pilotos da geração atual. Reconhecer Sophie por inteiro é recusar duas reduções: a da mulher que só importa porque gerou um campeão e a da mulher que só teria valor se tivesse continuado correndo.

Manuela Gostner oferece outro caminho possível. No site oficial, ela se apresenta em três palavras — mulher, mãe, pilota — e recusa a ideia de que maternidade e automobilismo pertençam a universos opostos.10 Jovem mãe de duas meninas, jogadora de vôlei e empreendedora no varejo, Manuela descobriu as corridas quase por acaso.10 A história dela é especialmente interessante porque, ao contrário de outras trajetórias, o automobilismo veio depois da maternidade.
Anos mais tarde, Manuela chegaria às Iron Dames, ao European Le Mans Series, ao Mundial de Endurance e às 24 Horas de Le Mans.10 Sua trajetória mostra que a maternidade não precisa ser lida como interrupção da ambição esportiva. Pode ser também linguagem de disciplina, coragem, organização, resolução de problemas e legado.
A discussão sobre maternidade e automobilismo também precisa olhar para as próximas gerações. Quando Kelly Piquet estava grávida de Penélope, filha dela com Daniil Kvyat, a jornalista brasileira Julianne Cerasoli perguntou ao piloto se ele gostaria de ver a filha seguir sua profissão. A resposta foi direta: “É uma garota”.11 Kvyat ainda disse que ela poderia se divertir no kart, se quisesse. A diferença entre “brincar no kart” e “seguir uma carreira” é justamente onde mora o problema.
Max Verstappen também já afirmou que não gostaria que sua filha Lily seguisse carreira no automobilismo.12 O contexto é diferente, porque Max fala a partir de uma vivência marcada por pressão extrema, treinos duros e uma relação pública complexa com a formação conduzida por Jos Verstappen. Ainda assim, quando pais projetam medo, proteção ou preconceito sobre as escolhas de meninas, a pergunta permanece: elas terão a mesma liberdade de tentar que os meninos tiveram?

Victoria Verstappen, irmã de Max e filha de Jos, também passou pelo automobilismo, pilotou no kart em Genk, venceu uma corrida de 100 milhas e não seguiu carreira profissional nas pistas.13 Max também já afirmou que a irmã tinha um nível de talento comparável ao dele quando criança.14 Hoje, Victoria é mãe, empreendedora e presença importante na torcida familiar.13 A história dela reforça um ponto essencial: igualdade não significa obrigar meninas a correrem. Significa garantir que elas possam correr se quiserem, parar se desejarem e não serem definidas por uma expectativa familiar, midiática ou comercial.
O legado mais importante que a geração adulta pode deixar para meninas no automobilismo não é transformar toda filha em pilota. É construir um ambiente em que nenhuma menina seja afastada da pista antes mesmo de descobrir se queria acelerar. Isso inclui combater o machismo explícito, mas também enfrentar o elitismo, a falta de patrocínio, a ausência de referências, a desconfiança sobre corpos femininos e a ideia de que maternidade e velocidade pertencem a mundos incompatíveis.
Bia Figueiredo, Danica Patrick, Sophie Kumpen, Manuela Gostner e Victoria Verstappen não contam a mesma história. E é justamente aí que está a força do tema. Uma continuou e venceu depois da maternidade. Outra criou possibilidades reprodutivas para adiar uma decisão. Outra saiu das pistas e teve sua carreira própria apagada pela narrativa do filho campeão. Outra começou a construir a vida nas pistas depois de já ser mãe. Outra escolheu não seguir no automobilismo profissional.
Essas trajetórias diferentes apontam para a mesma reivindicação: mulheres não precisam escolher entre maternidade e automobilismo como se uma dimensão anulasse a outra. Elas precisam de estrutura, respeito, patrocínio, credibilidade e liberdade. Liberdade para correr. Liberdade para parar. Liberdade para voltar. Liberdade para cuidar. Liberdade para não maternar. Liberdade para maternar sem serem expulsas simbolicamente do cockpit.
No fim, a pergunta não é se mulheres mães podem acelerar. A história já respondeu que sim. A pergunta é por que o automobilismo ainda insiste em tratar essa resposta como exceção.
Ester dos Santos é mestranda em Ciência Política, na UnB, acompanha Fórmula 1 desde 2009 e ama falar de automobilismo, política e assuntos afins.
Referências
1. CBA — Bia Figueiredo é primeira mulher campeã na Copa Truck.
2. IVECO — IVECO anuncia Bia Figueiredo como nova pilota da marca na Copa Truck.
4. ABC News — Danica Patrick opens up about freezing her eggs.
5. ESPN — Nico Rosberg becomes father.
6. Fox Sports — Family before fortune for retiring Casey Stoner.
7. RacingNews365 — Sophie Kumpen.
9. Sportskeeda — Was Max Verstappen’s mother a racer? All about Sophie Kumpen’s racing career.
10. Manuela Gostner — Página oficial
11. UOL — Entrevista de Julianne Cerasoli com Daniil Kvyat.
12. ESPN — Fatherhood and a decade in F1 give Max Verstappen perspective on life.
13. GPBlog — Victoria Verstappen.
14. The US Sun — Max Verstappen claims little sister “has same talent” as him.