
O piloto da McLaren na F1, Lando Norris, chamou atenção no GP de Canadá com o capacete que representava um cérebro saudável e outro lado afetado pela demência. O motivo foi pra chamar a atenção para a instituição beneficente Race Against Dementia, fundada pelo tricampeão da F1, Jackie Stewart. A esposa do tricampeão escocês está em tratamento, após ser diagnosticada com demência.
Lando é conhecido por ser um dos pilotos mais vocais quando o tema é saúde mental. Ao lado dele, Carlos Sainz e Lewis Hamilton já se posicionaram a favor de campanhas de apoio aos cuidados da saúde mental. Em adição a isso, este assunto vai ficar cada vez mais recorrente no Brasil, com a NR-1, sobre saúde mental do trabalhador, do Ministério do Trabalho, que vai entrar em vigor em 26 de maio de 2026.
É notório que a falta de estratégia na hora de usar a norma a favor do automobilismo pode ser um fator para evitar multas recorrentes e distorções do verdadeiro objetivo da regulamentação, contudo, ao contrário do que se pensa, a NR-1 pode trazer mudanças muito positivas para a saúde mental de membros de todo o paddock e torcedores, além do aumento da produtividade e competitividade no esporte.
Infelizmente, o tema da saúde mental chegou no automobilismo tardiamente e ainda com muitos tabus. É comum no mundo inteiro, principalmente entre os homens, a psicofobia, o preconceito com temas que giram em torno da saúde mental, os tratamentos para o psíquico e as pessoas que possuem algum transtorno mental.
É normal ouvir piadas entre torcedores do esporte ao motor, quando um piloto vai mal nas pistas, recomendando uma ida deste ao psicólogo, contudo, em tom de deboche. Mas apesar do que muitas pessoas pensam, o trato com a saúde mental no trabalho vai muito além do que contratar profissionais de saúde para acompanhar os trabalhadores, segundo a nova versão da NR-1, significa gerir os riscos psicossociais, os fatores na liderança que geram burnout nos trabalhadores e outras doenças relacionadas ao trabalho (outras NRs que vão entrar em vigor nesse dia 26 de maio – também falam da saúde física do trabalhador).
Em vista disso, a entrada em vigor da NR-1 para todas as empresas com pelo menos um colaborador CLT (e outras categorias, como servidores públicos, adolescente aprendiz, entre outras) representa a necessidade de preocupação real com a saúde mental nos autódromos brasileiros. Pois empresas que não cumprirem a norma podem pagar multas bem pesadas se não se conformarem à nova medida.
Contudo, essa nova estrutura da NR-1 do Ministério do Trabalho (MT) pode representar um avanço na produtividade, esportividade e competitividade do automobilismo brasileiro, e não o contrário. A NR-1 não pede para que se elimine o estresse do trabalho, tão característico de ambientes de cobrança, ainda mais em esportes de alto rendimento, de outra forma, como foi dito, pede para que os riscos psicossociais sejam geridos, para que doenças relacionadas ao trabalho sejam evitadas.

Ou seja, essa atualização das NRs do MT é revolucionária não só para pilotos, mas para mecânicos, engenheiros e todas as pessoas que convivem nos paddocks brasileiros. Algumas medidas práticas, como exemplo, a serem postas em ação: tempo de descanso para trabalhadores, equipamentos de segurança, políticas de comunicação e medidas antidiscriminação e contra o assédio moral e sexual (NR-28). É essencial atentar para este último ponto.
O automobilismo, durante mais de século, foi considerado um esporte de domínio dos homens (apesar de que há décadas mulheres participam de corridas e obtêm bons resultados) e para quem tem características do estereótipo machista. Por isso, assuntos relacionados a direitos humanos, antidiscriminação e esg foram vistos como “externos ao automobilismo” durante a maior parte do tempo e ainda hoje se enfrenta preconceito quando se trata disso dentro do esporte a motor. Contudo, estabelecer políticas que respeitem os direitos dos trabalhadores e, inclusive, combatam o assédio e a discriminação, é essencial para a boa reputação do esporte, a produtividade e a competividade também.

Como exemplo disso, durante décadas a comunicação tem sido o ponto frágil de equipes e categorias, o que traz inúmeras confusões e prejuízos na rotina de ambos, como ordens mal interpretadas dentro dos times, dificuldade entendimento de times entre si e com as categorias. Tudo isso representa mais estresse, mais burnout e preciosos pontos de campeonato e até mesmo dinheiro que o paddock perde. O turnover entre profissionais das equipes também é um grande prejuízo para as equipes, pois precisar trocar sempre mecânicos, engenheiros e várias outras funções dentro do autódromo envolve mais impostos e necessidade de retreinamento constante.
Além disso, a questão do assédio precisa ser tratada não só relativo aos profissionais de paddock, mas quanto a torcedoras, equipes de comunicação, entre outros. É bem conhecido que as minorias, como mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência são os principais alvos de assédio. Não combater isso impede que novos talentos brilhantes das minorias sociais tenham a oportunidade de mostrar seu talento. Em adição a isso, muitas torcedoras de automobilismo evitam os autódromos ou deixam de frequentá-los por causa dos constantes assédios nas arquibancadas.
Em vista de tudo isso, o automobilismo brasileiro pode escolher enfrentar a entrada em vigor da NR-1, em 26 de maio de 2026, como uma janela de oportunidade em vez de um custo de oportunidade. Tanto do ponto de vista da imagem, ao mostrar modernidade por ser um dos primeiros esportes a implementar de forma efetiva a nova regulamentação de saúde mental do trabalhador, quanto pela própria competividade, ao cuidar da saúde mental de atletas, mecânicos, engenheiros e demais membros do padock.
Além disso, um esporte sem discriminação e assédio, que respeita o direito das minorias, é essencial para que direção de categorias, equipes, membros do paddock, imprensa e torcedores possam ter um ambiente esportivo mais seguro e ao mesmo tempo mais próspero.
Ester dos Santos é cientista política, mestranda na área e fundadora da Caminhos de Equidade, consultoria de NR-1, direitos humanos e diversidade