Onde há dinheiro, misturamos política com esporte

Mulher bareinita na manifestação contra a realização do GP do Bahrein (Imagem: Getty Images) 

Aristóteles, um dos principais e mais importantes filósofos da Grécia Antiga, disse “O homem, por natureza, é um animal político”, expressando que somos um corpo político. No ambiente da Fórmula 1, esse assunto é tratado sempre, no entanto, não são todos relacionados a esse tema abrangente podem ser comentados. Como falar de direitos humanos, principalmente de minorias, ao tocarem nesse assunto, automaticamente surge a frase “não se mistura política com esporte”.

Política e Fórmula 1 são como melhores amigos, sempre juntos, nunca largam a mão do outro e tem diversos interesses em comum. Os acordos com as empresas da indústria tabagista nos anos 70, que fizeram parte de momentos históricos da categoria, os carros da McLaren com a Marlboro nos anos 80 e as vitórias de Ayrton Senna, por exemplo. Além de outras parcerias com empresas de petróleo e gás natural, recentemente com a Aramco, uma das mais poluidoras do mundo, havendo uma contradição com o objetivo da categoria de não emitir carbono até 2030.

Ayrton Senna e Alain Prost com o MP4/4, com a propaganda da Marlboro em 1988 (Imagem: Motorsport Images)
Propagandas da Aramco, companhia petrolífera saudita, nas pistas (Imagem: Getty Images) 

Historicamente, a categoria nunca se importou em realizar corridas em países com regimes ditatoriais e com escassez de direitos humanos. As corridas na África do Sul, nos anos de 1962 e 1965 e entre 1967 a 1993, ocorreram sob o Apartheid, regime de segregação racial, onde os direitos da maioria negra da população eram restringidos pelo governo formado pela minoria branca, persistiu de 1948 a 1994. Na América do Sul, o primeiro GP do Brasil em 1972, ainda como evento teste, foi realizado durante a ditadura militar, permaneceu de 1964 a 1985.

GP da África do Sul de 1985, em Kyalami (Imagem: Motorsport Images) 
GP do Brasil de 1972, Autódromo José Carlos Pace, São Paulo (Imagem: Motorsport Images) 

Com a Guerra da Ucrânia, houve mudanças no calendário e no grid, a organização rompeu o contrato com o GP da Rússia e a equipe Haas cortou laços com o piloto Nikita Mazepin e a patrocinadora Uralkali. Durante a pré-temporada, a Formula 1 se posicionou, junto com os pilotos pedindo paz no conflito. Uma das primeiras vezes que a categoria e alguns pilotos, que não se ajoelhavam nas cerimônias “We Race As One”, que acontecia antes das corridas, resolveram se pronunciar.

Na primeira imagem, pilotos se posicionando contra a Guerra da Ucrânia e na segunda alguns se ajoelham na cerimônia “We Race As One” (Imagens: Getty Images)

Caso a guerra ocorresse fora do continente europeu, não haveria uma comoção e pedido de paz, cancelamento de acordos e corridas com o país que bombardeia, se um dos pilotos pronunciasse no pódio, seria multado por fazer “apologia política”. Nunca houve uma reação contra aos Estados Unidos, que bombardeiam o Oriente Médio e países da África, por exemplo, muito pelo contrário, mantiveram o GP de Austin, adicionaram o de Miami e já confirmara o de Las Vegas na próxima temporada. Uma amostra clara de interesse e empatia seletiva da categoria.

Não só o caso dos Estados Unidos, mas também de outros países que violam os direitos humanos, como o caso das corridas do Bahrein, Catar, Dubai, Arábia Saudita, da Hungria, entre outros. No GP de Jeddah deste ano, na Arábia Saudita, houve uma explosão provocada por ataques de iemenitas a um depósito da Aramco há 10 Km do circuito, o país está em guerra com o Iêmen desde 2014.

Explosão perto do autódromo durante o treino livre (Imagem: Getty Images) 

Segundo o jornal Marca, depois de uma reunião dos pilotos após o segundo treino livre, vários se manifestaram a intenção de sair de Jeddah, contudo tanto o governo local quanto os organizadores da categoria, prometeram as equipes que não haveria qualquer risco e a corrida aconteceu.

Pilotos após a reunião com os organizadores e integrantes do governo local (Imagens: Getty Images) 

Ao contrário de cancelar a corrida, pela segurança das equipes, resolveram permanecer, essa atitude deixou bem claro que para eles, o dinheiro é mais importante que vidas. Além não haver empatia com seres humanos, não há pela natureza, como o caso do projeto de construção de um autódromo no Rio de Janeiro, em conjunto com o governo local, na intenção de desmatar a Floresta do Camboatá, onde abriga cerca de 200 mil árvores de 146 diferentes espécies.

Floresta do Camboatá no Rio de Janeiro (Imagem: SOS Floresta do Camboatá) 

Na Fórmula 1, os interesses sempre falaram mais alto que a questão da sustentabilidade e direitos humanos. A política nesse meio é tão comum quanto o céu ser azul, no entanto, em questões humanitárias, em especial fora do continente europeu, desprezam e até proíbem equipes e pilotos de se manifestarem sobre. Ao dizer que são assuntos que não se misturam, é ignorar a existência da categoria, visto que somos um corpo político. “Cash is King”, a frase de Lewis Hamilton dita na coletiva de imprensa, antes do cancelamento do GP da Austrália de 2020, pela questão da pandemia de Covid-19, expressa muito bem de como a organização funciona.


Joyce Rodrigues é uma carioca de 19 anos, que está cursando o primeiro período de jornalismo. Ama escrever sobre esportes. A Fórmula 1 é uma das suas maiores paixões desde os seus 14 anos.

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