
A Fórmula 1 atravessa uma das transformações técnicas mais profundas da última década. Nos testes de pré-temporada realizados no Circuito Internacional do Bahrein, o primeiro contato entre carro e pista revelou, na prática, o impacto do novo regulamento de motores. Agora, com divisão exata de potência: 50% proveniente da combustão interna e 50% da parte elétrica.
A proposta é clara; tornar a categoria ainda mais eficiente e alinhada às tendências tecnológicas globais. No entanto, o que era esperado como um salto de inovação expôs um paddock dividido entre o avanço tecnológico e a essência histórica do esporte.
Novos desafios
O novo conjunto motriz altera profundamente a dinâmica de pilotagem. A maior dependência da energia elétrica exige gerenciamento constante, redefinindo estratégias de corrida, ultrapassagens e até procedimentos de largada.
Se, por um lado, a categoria busca eficiência e modernidade, por outro, cresce o receio de que a complexidade excessiva dilua características tradicionais da Fórmula 1, como agressividade na pilotagem e liberdade para explorar o limite do carro.

Os descontentes
Entre os críticos mais contundentes está o tetracampeão mundial Max Verstappen. O holandês classificou o novo regulamento como um “grande passo atrás” e não poupou adjetivos ao descrever os carros como “anticorrida”.
“Para pilotar eles não são muito divertidos, para ser sincero. Eu diria que a palavra correta é gerenciamento, não tem muito a ver com Fórmula 1. Parece um pouco mais como uma Fórmula E com esteroides. Mas as regras são as mesmas para todos, então você precisa lidar com isso”, afirmou Verstappen, que acredita que o excesso de sistemas torna o carro artificial e reduz o protagonismo do piloto.
Lewis Hamilton seguiu linha semelhante, destacando a complexidade técnica: “Eu participei de uma reunião outro dia e eles estão nos explicando tudo. E sim, parece que você precisa de um diploma para entender tudo completamente”, criticou o heptacampeão.

Fernando Alonso, conhecido pela franqueza, foi além ao questionar a perda de identidade da categoria. O espanhol ironizou a influência da aerodinâmica ativa e a facilidade de condução em determinados trechos.
“O papel do piloto está morrendo. Os carros do fim dos anos 90 e começo dos 2000 eram os melhores de pilotar, com aquele som característico da Fórmula 1. Você ganhava tempo ao assumir riscos. Hoje, um chef de cozinha pode fazer a curva 12 do Bahrein”, disse o veterano.
Sergio Pérez também demonstrou preocupação com a possível descaracterização da categoria, temendo uma aproximação excessiva com a Fórmula E, onde a gestão de energia é elemento central.
“No momento, simplesmente não sei como vamos correr. Parece que as ultrapassagens são um pouco mais complicadas, que é preciso administrar a energia e assim por diante. Não quero tirar conclusões precipitadas. Mas pode ser semelhante às corridas da Fórmula E”, comparou o mexicano.

Caos nas largadas
As largadas surgem como um ponto ainda mais sensível. O novo sistema de entrega de energia elétrica trouxe complexidade adicional nos primeiros metros de prova.
Oscar Piastri definiu o procedimento como uma “receita para o desastre” e destacou que o tradicional impacto do DRS nas ultrapassagens dá lugar a um modelo mais estratégico, baseado no acúmulo e uso inteligente do chamado “boost” de energia.
“Há muitos pontos para abordar. Largadas e ultrapassagens certamente também serão diferentes. O DRS era basicamente uma vantagem direta para ganhar posição, enquanto agora, com o boost de energia, precisamos recuperar essa energia extra de alguma forma e depois usá-la, o que, com algumas regras em vigor, nem sempre é tão simples”, avaliou Piastri.
O brasileiro Gabriel Bortoleto detalhou a dificuldade prática dentro do cockpit: “É complicado. Tem essa coisa dos 10 segundos, depois de cinco eu já perdi a conta, motor acelerando, engata marcha, desengata, solta a embreagem… é uma bagunça. Ano passado era muito mais simples”, revelou Bortoleto.
A sensação compartilhada por parte do grid é de que o início das provas pode se tornar um dos momentos mais imprevisíveis e potencialmente caóticos da temporada.

O contraponto da adaptação
Nem todos, porém, veem o cenário de forma pessimista. Charles Leclerc reconheceu que a “pilotagem pura” pode ter sido reduzida, mas preferiu valorizar o novo desafio técnico: “O desafio de desenvolver todo esse sistema novo é algo que foi prazeroso. É interessante. Dá prazer experimentar coisas diferentes, testar acertos que talvez antes não funcionassem. Agora, tudo é diferente e é bom pensar um pouco fora da caixa para maximizar o desempenho”, comentou o piloto Ferrari.
George Russell adotou postura equilibrada. Concordou que as críticas de Verstappen têm fundamento, mas lembrou que ainda há margem para evolução antes da primeira corrida oficial.
“Gosto de manter a mente aberta, haverá muito progresso em três anos. Se analisarmos os motores de 2014, muitos pilotos reclamaram. Depois, no final do regulamento, o motor era o mais potente que já vimos na Fórmula 1. Portanto, é um pouco prematuro criticar tão cedo, mas as preocupações que eles estão levantando são, sem dúvida, justificáveis”, afirmou o piloto Mercedes.

A resposta mais ácida veio de Lando Norris. Irritado com o pessimismo do atual campeão, o piloto da McLaren foi direto: “Eu me diverti bastante (com o novo carro). Então, se ele quiser se aposentar, ele pode se aposentar. A F1 muda o tempo todo. Às vezes, fica melhor para dirigir, outras vezes não fica. Mas a verdade é que a gente recebe uma quantia estúpida de dinheiro para dirigir, então não dá para ficar reclamando”, disparou o piloto McLaren
Entre tradição e futuro
A Fórmula 1 sempre foi um laboratório tecnológico sobre rodas. Em 2014, quando a era híbrida começou, as críticas também foram intensas. Com o tempo, no entanto, os motores se tornaram os mais eficientes e potentes da história da categoria. A atual mudança repete esse padrão: resistência inicial, incerteza competitiva e um longo período de adaptação.
A diferença é que, desta vez, o equilíbrio entre combustão e eletrificação coloca a identidade do esporte no centro do debate. Resta saber se, quando as luzes se apagarem para a primeira largada oficial, o espetáculo falará mais alto que as críticas ou se o novo regulamento consolidará uma ruptura definitiva na forma de competir na principal categoria do automobilismo mundial.
Nathalia Tetzner é jornalista formada pela Unesp e trabalha com produção de conteúdo de Fórmula 1, audiovisual e cultura, unindo informação e narrativa para diferentes plataformas.
2 thoughts on “F1 começa uma nova era sob críticas e insatisfação dos principais pilotos do grid”