O Esporte a Motor e a Luta Antirracista

Piquet usa termos racistas e homofóbicos contra Lewis Hamilton. Foto: Reprodução: Twitter

Nas últimas semanas vieram à tona escândalos racistas no mundo do automobilismo mundial, que trouxeram estarrecimento para muitos dentro e fora do público do esporte a motor. Apesar de as manifestações de indignação com o racismo feitas por membros de dentro e fora da comunidade automobilística serem muito válidas, ainda existem muito poucas medidas sendo implementadas para enfrentar este problema.

No dia 21 de junho, a academia de pilotos da Red Bull decidiu suspender Juri Vips, 21 anos, piloto da Fórmula 2, por este usar a palavra “nigg*r” — um termo em inglês que é depreciativo para se referir a pessoas negras — e dizer que a cor rosa é para gays em uma live no Twitch. No entanto, a equipe de Vips, Hitech, decidiu mantê-lo na categoria este ano, apesar dos protestos da direção da Fórmula 2.

Poucos dias depois, viralizou um trecho de uma entrevista de Nelson Piquet, feita no ano passado, em que ele chama o Lewis Hamilton de “neguinho”. Em resposta, Piquet admitiu que usou o termo de forma errada, mas também argumentou que “neguinho” era um termo para “pessoa”, “cara”, em português. Contudo, um novo corte da mesma entrevista comprovou que o tricampeão brasileiro usou o termo “neguinho” de forma depreciativa e ainda fez um insulto homofóbico ao heptacampeão mundial. Na quinta-feira, dia 30 de junho, o Clube dos Pilotos Britânicos (British Racing Driver’s Club) decidiu pela suspensão de Piquet e sua iminente expulsão. O piloto brasileiro é membro honorário da instituição.

Essas situações são resultado do racismo estrutural, que permeia a mentalidade social e as instituições. Segundo Silvio Almeida (2019), o racismo estrutural é um processo histórico e político que não se resolve apenas com a penalização, mas com debate público e mudanças nas relações sociais como um todo. O esporte também deve ser âmbito de luta contra o racismo, não só com ações punitivas, mas educativas. O esporte, historicamente, sempre esteve ligado à política, apesar de ser comum se tentar negar isso hoje. O próprio presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), Mohammed Ben Sulayem, criticou, apesar de ter se retratado depois, o envolvimento de pilotos, como Lewis Hamilton, Lando Norris e Sebastian Vettel com o ativismo político. Mas a neutralidade também é posicionar-se e não tomar atitude é deixar que comportamentos racistas se perpetuem.

Não é por acaso que Piquet use o argumento que o termo “neguinho” é comum no Brasil, para expressar “qualquer pessoa”. No Brasil, existe a ideologia da democracia racial, que afirma que não há racismo nessa nação. Uma das características do racismo brasileiro é que ele é disfarçado, diferente deste fenômeno em países anglo-saxões, onde este é aberto e declarado. Mas, pelo fato de o racismo no Brasil ser disfarçado, não significa que ele seja mais leve ou mais fácil de ser combatido. Na realidade, a falta de reconhecimento de um problema torna mais difícil organizar e sustentar respostas para ele e permite que seus perpetradores não sejam responsabilizados. O racismo no Brasil se esconde em meio a expressões racistas, estereótipos e comportamentos discriminatórios. Os próprios casos de racismo, caracterizado como inafiançável pela Constituição Brasileira, são, na maioria das vezes, tipificados como injúria racial, cuja penalização é menor.

Tanto em contexto nacional como internacional, dentro e fora da comunidade do automobilismo, há a falta de vontade política para enfrentar a temática do racismo. Apesar de após os casos de racismo aqui citados, várias pessoas e entidades do automobilismo tenham se posicionado, é preciso um comprometimento maior para o fim dessas desigualdades raciais. Isso passa por incluir mais minorias sociais no automobilismo, para que haja representatividade. Contudo, não são apenas as minorias étnicas que devem estar envolvidas com o antirracismo. As relações raciais envolvem, por definição, vários grupos raciais.

A FIA tem sido muito tímida em colocar medidas eficazes no We Race as One (“Nós Corremos como Um”, em uma tradução livre), programa para incluir minorias na Fórmula 1. A Federação chegou a retirar a cerimônia em que os pilotos, que desejavam, podiam ajoelhar-se em protesto contra o racismo. Ações para superar as iniquidades raciais devem ir além de ações punitivas, mas promover a conscientização da importância da equidade racial para que as minorias sociais não só possam ter oportunidades iguais no automobilismo, mas possam se sentir seguras e bem-vindas no esporte a motor.

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Ester dos Santos é mestranda em Ciência Política, na UnB, acompanha Fórmula 1 desde 2009 e ama falar de automobilismo, política e assuntos afins.

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